"Existe uma vela acesa, ao fundo da sala, um espelho que não espelha reflexos, uma mesa com timbres permanentes e uma ânsia pelo passo da haste do cronómetro. "


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Arde-me a alma


Arde-me a alma; tenho fome e insensatez;

Arde-me o corpo;

Queima-me viver este fogo tão só e tão ermo.

Sinto-me tão inerte, nesta noite tenebrosa e sem Luar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Andar à procura de... mim.

Esta noite parto,
Sem qualquer despedida.
Parto com o Tempo,
Sem destino.

Esta noite parto,
E regressarei quando me encontrar,
Desnuda, livre e sóbria,
Em qualquer esquina da vida.

Serei feroz, cruel e perversa,
Como o Tempo,
Coberto de fôlego,
Correndo pelos portos e pelas prais,
Sem destino.

Serei sóbria, livre e desnuda, então
não me invoques,
Não me escoltes;
O meu destino só é meu,
Só eu o poderei encarar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Corpo de delito

Sinto o teu corpo despido

Enleado na escuridão;

Sinto o teu olhar ténue,

Tácito, confidente;

O teu corpo possante,

O teu olhar ardente;

Sinto-te,

E tu sentes as minhas mãos inertes,

No teu corpo veemente.

sábado, 9 de outubro de 2010

Âmago


Fixas-me com esse olhar,
Aceso e ardente,
Louco de insensatez,
Onde o desejo e a saudade
Se distinguem sem pejo.
Tacteando o teu peito,
Sinto um pulsar tão forte e possante.
Por que me agarras,
Quando alego que não te anseio,
Enquanto penso que, te desejo veementemente?
Porquê?
Porquê?
Porque juntos somos morte!
Límpidos como gatos negros na escuridão,
Sem pudor e sem pudicícia.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Canto ao fulgor



Me reencontrei,
A auferir voo, no dédalo clandestino.
Ostentando o fasto, saboreando o mosto...
E espiando uma suavidade composta de xevá.
O Mundo é tão peculiar para nós,
Meu Amor, composto da doçura
De uma magnânima de Náiade.


Abri o olhar, para o âmago do nosso ser
E para as nossas raízes que pisam terra sólida.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Alva e transparência


Aqui aonde a mente me cai,

Aonde tudo foi efémero e passageiro,

De um tom azul espaçado.


Aqui aonde o vento soprou,

Aonde a brisa passa numa imensa correria,

E a volúpia infame se reveste num manto de júbilo e cristais.


Sou predador de um todo ameno,

De um renascer sólido e distinto:

O esquivo é a minha preia.

domingo, 15 de agosto de 2010


O deleite de dançar, de ser volúvel, é um estado aguçado que sulca o horizonte, sem o menor esforço.

domingo, 25 de julho de 2010

Fumo leve que foge entre os meus dedos



"Fumo leve que foge entre os meus dedos",
Assim era antes do relógio bater,
Antes da meia-noite alvorecer.


Ó noite,
Guarde compaixão, não revele segredos,
E estenda ao rio os seus grandiosos dedos.


Bebo impaciente,
A saliva que cai dos seus lábios soberbos.


Não escutais a melodia daquele que é pagão,
Ignorai a voz do coração, e fumai até morrer,
Mas não ignorai a chegada do anoitecer.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Excelso


Não há bucólicas pela cidade,
Não há composição pastoril,
Não há marés de vontade,
Existe o vigor de Abril.

Hoje sonhei com mil despertares
Soltos da dúvida de olhares,
Que o Mundo veste em mim;
E assim caí, numa cobiça por florescer,
Num batel que navega, no mar Arder.


domingo, 30 de maio de 2010

Amor puro



Amor perdido,
Acusado foi o meu ser de te perder,
No meu leito, nas minhas mortalhas,
Nos meus passos, nos compassos,
No tempo, na sorte.

Amor perdido,
Por onde vais?
E porque perdido foi nomeado o teu vulto?
Porque te fui eu naufragar,
Nos recantos da minha mente?


Amor,
Renuncia ao vento os desertos,
Renuncia aos loucos o bem-querer,
Renuncia o interesse dos comodistas.


Amor,
Dispo a minha mácula
E me encho de cegueira,
Exploro o teu odor remoto, oco de perdição.

sexta-feira, 21 de maio de 2010


Desejo-te: "Tem uma boa vida,

Parte para onde te julgares capaz,

Encontra uma bela guarida,

Mas não me digas para aonde vais".



Desabas-me nas vertigens,

Exaltas os silêncios,

Comparas-me aos ventos.

Hoje estou compenetrada,

Enraizada de certezas,

De que a tua audácia, ó noite,

Me despiu a inocência.



Caminhavas sedutora,

Descoberta e descalça,

Chamativa e encantadora,

Na meia-noite que me falta.



E se não te encontro hoje,

Ó noite, se não te agarro…

Permanecerei tão imponderável e intocável.

domingo, 9 de maio de 2010

Ó moça


Ó moça que passa,
No meio da praça,
Provoca a desgraça,
Aonde não passará mais.

Ó moça que passa,
Cheia de graça,
Não me quereis dizer aonde vais?

Ó moça que passa,
Descalça e esgarça,
Embaraçada fugida do Arrais.

Não vos quero mais ó moça,
Não mais, não mais.

domingo, 18 de abril de 2010

Indulência

Perdoai minha alma não divina,
Que o muito é sombria...
Perdoai as sombras que transporto em mim.

Perdoai a minha calamidade,
Minha indelicadeza, e meus pecados.
Perdoai-me enfim, a mim.

Colhei minha vaidade não digna,
E cantai-me os sonetos lá da Noite.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

(Pro)Cura


Por que marés navegas, ó encanto?

Por que ventos te evaporas?

Por quanto tempo mais demoras?


Não mais canto...

Foges por aí, nua... ó Noite.

Livre e perdida em braços alheios.


Olhares soltos pela janela.

Ambiciono tanto, deliro, elouqueço, estremeço...

...Alucino em traçar seus contornos nus, irascívelmente.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Fadiga



Oh importuno Passado,
O qual não consigo evitar...
Escondi-te tão longe, tão longe,
Lá, nos sulcos do hesitar.

Mas o senhor Futuro,
Não abre a porta,
Porque o Presente não rende a Chave;
E a minha alma fica tão morta.


Vou continuar a ambicionar...

domingo, 7 de março de 2010

Noite eterna



O elevado escreveu em todas as sebes da noite,
Que a tua voz procurou por mim.
E eu ouvi, confesso...

Me escondi,
Escondi-me, não nego,
Direi a verdade...
O meu olhar ficou cego,
Ornado de fatuidade.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Nevoeiro nocturno



Passou-se mais um dia, outro dia passará…

Ó invernia, meus olhos novamente fecho,

Para que me seja dada volúpia jovial.

E tão mitigadoramente dispo o meu fato de enredo;

Velas acesas e seu grande fulgor

Meu contornos inocentes tecerão…

E na madrugada, do outro dia, reflectirei o ritual

E novamente passará mais um dia, e outro dia passará.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Na escuridão os meus olhos fecho


Hoje evoco a escuridão
Que inspire o meu lar.
Hoje evoco a escuridão
para te avistar.

Se não houvesse escuridão,
Oh! O que o amor seria?

Divagava perdido o Vento,
Naufragava o abismo,
E aplacadas as velas de chama cálida cessariam.


Na escuridão os meus olhos fecho.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Mare Nostrum

A salvo. A salvo no meu barco.
Em perigo. Em perigo neste mar.
A remar. A remar neste amor.
A sufocar. A sofocar neste pranto.
A morrer. A morrer de quebranto.
A amar. A amar na escuridão...silenciosamente.