
Arde-me a alma; tenho fome e insensatez;
Arde-me o corpo;
Queima-me viver este fogo tão só e tão ermo.
Sinto-me tão inerte, nesta noite tenebrosa e sem Luar.
por aqui fico,
"Existe uma vela acesa, ao fundo da sala, um espelho que não espelha reflexos, uma mesa com timbres permanentes e uma ânsia pelo passo da haste do cronómetro. "
Sinto o teu corpo despido
Enleado na escuridão;
Sinto o teu olhar ténue,
Tácito, confidente;
O teu corpo possante,
O teu olhar ardente;
Sinto-te,
E tu sentes as minhas mãos inertes,
No teu corpo veemente.


Desejo-te: "Tem uma boa vida,
Parte para onde te julgares capaz,
Encontra uma bela guarida,
Mas não me digas para aonde vais".
Desabas-me nas vertigens,
Exaltas os silêncios,
Comparas-me aos ventos.
Hoje estou compenetrada,
Enraizada de certezas,
De que a tua audácia, ó noite,
Me despiu a inocência.
Caminhavas sedutora,
Descoberta e descalça,
Chamativa e encantadora,
Na meia-noite que me falta.
E se não te encontro hoje,
Ó noite, se não te agarro…
Permanecerei tão imponderável e intocável.

Por que marés navegas, ó encanto?
Por que ventos te evaporas?
Por quanto tempo mais demoras?
Não mais canto...
Foges por aí, nua... ó Noite.
Livre e perdida em braços alheios.
Olhares soltos pela janela.
Ambiciono tanto, deliro, elouqueço, estremeço...
...Alucino em traçar seus contornos nus, irascívelmente.

Passou-se mais um dia, outro dia passará…
Ó invernia, meus olhos novamente fecho,
Para que me seja dada volúpia jovial.
E tão mitigadoramente dispo o meu fato de enredo;
Velas acesas e seu grande fulgor
Meu contornos inocentes tecerão…
E na madrugada, do outro dia, reflectirei o ritual
E novamente passará mais um dia, e outro dia passará.