"Existe uma vela acesa, ao fundo da sala, um espelho que não espelha reflexos, uma mesa com timbres permanentes e uma ânsia pelo passo da haste do cronómetro. "


quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Fernandes, acorda

Hoje é o último dia de Dezembro, não me recordo como teria sido o anterior, mas cálculo deprimente. É sempre deprimente, acabar uma coisa com que não nos satisfizemos.
Pergunto-me se tudo o que fiz foi correcto, se tudo foi como eu queria que fosse. A reposta sem nenhuma dúvida nenhuma, é não. O que foi isto por que passámos? Sim "passámos", porque eu sou um duo. Eu sou um ser dividido em dois, o 'eu' e o outro lado do espelho, que ainda é um pouco desconhecido. Este 2008, resumido a (quase) infelicidade total, parecia como uma janela que não queria fechar num dia de chuva em pleno Inverno.
Senti-me como a dormir na escuridão, e nada me acordava, haviam apenas pequenas claridades que evocavam por mim.
Tantas questões, tantas incertezas, tanta insegurança, ilusão e melancolia. Resume-se tudo a isto, nós não queríamos que assim fosse. Fugi-mos, escondemo-nos, andámos camufladas, famintas, com frio e sede.
O amor não chegava, talvez quiséssemos mais (ou menos), e o que havia não sabia desfrutar o suficiente de nós, ou então éramos nós que não tirávamos todo o partido dele. Como se fossemos dois lobos que se amam selvagemmente, éramos unicamente nós, sentíamos vontade de morder, rasgar e amar a nossa pele e depois chorá-la.
Nada passava de um piano, um piano que nem existe, de teclas que eu carregava para te evocar a ti, sim porque eu te evocava, e ainda hoje evoco, falo "sozinha", ou melhor falo contigo, falo comigo. Ouves sempre, sempre ouvis-te e respondes-me, sempre desses-te tudo o que achavas e sempre me mordes-te a pele quando foi preciso. Estives-te lá quando eu não conseguia abrir os olhos de tão inchados que estavam (porquê?), quando não quis comer, quando não quis dormir, quando não quis ouvir, nem ver, quando eu quis morrer. MORDESTE-ME, quando percebes-te que eu precisava que acordar. Não sei se te culpar a ti ou a mim, por tudo o que nos tem acontecido, mas meu amor, amor meu, o mundo nunca esteve contra nós, nem o mundo nunca nos vai agradar (totalmente). Não vivemos tudo o que era belo, nem vamos morrer sem ver, não chores mais por mim...porque não vou aguentar, e vou chorar por ti, precisamos de acordar, precisamos de nos morder. Porque sempre foi assim... um piano com algumas peças partidas, que precisam de uma renovação...
Sempre houveram flores no jardim, que nos faziam sorrir, sempre houve sol para nos aquecer e chuva para nos matar a sede! Sempre houveram mãos, dedos, braços, pernas e pés para mordermos, sempre houveram lábios para metermos a sangrar, sempre houve veneno!
E confessámo-nos poetas, e gritámos:
"Os meus dedos dançam sobre as teclas,

Envolvem-se com as canetas,
Que reprimem a tinta a fluir pelo papel. "
Queremos ter fúria e ao mesmo tempo paixão por aqueles que não nos quiseram amar e ao mesmo tempo, nos tornaram poetas...
Terminámos assim o 2008, no qual nos falta algumas horas para terminar. Para nós terminou, nunca deixaremos ninguém nos partir o espelho, nunca deixaremos de morder para acordar.
Iremos ser irónicas, e apesar de tudo adormecer mordidas e a sorrir.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Apaguei,

Ceguei os meus olhos,
Só querendo ver aquilo que tenciono ver.
Não sei se chove, se neva ou faz sol.

Só sei que ceguei,
Com delírios tremendos,
E pudor de os afirmar.

Ceguei, eu não vejo, ninguém me vê,
Mas se alguém perguntar… eu voei.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Redoma de encontros



O meu olhar pousou no horizonte
Encontrando, beleza interminável.

Abafos profundos saídos da tua boca.
Que cessavam na minha.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Contra-Tempo


Encolhi-me diante vento,
Estendi-me sob as folhas derrotadas,
Estendi a minha mão aberta,
Soltando os gemidos que guardei.

Fiz um rasto, de sementes de sol para alguém me enxergar,
Mas eles voaram como pássaros cegos ao luar.

Verbo rebentar, fugir, ou morrer?


Abandonaste-me na noite,
E eu néscia esperei,
Ouvi bater a meia-noite,
O rebentar do dia,
Como se fosse ondas,
Do derreado rio.
O rio de água gélida, gélida,
A qual me arrepia corpo, só de relembrar em mente.
Memórias, memórias, digo eu,
Memorias grito!

Pois eu morri,
A cidade morreu,
O rio morreu,
A meia-noite morreu,
Tudo morreu em ti!

Nada resta…
Fugimos para longe, ou terei sido apenas eu a fugir?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Bêcos de Dezembro



Durante onze meses,
São somente vulgares, lastimosos,
Pousados numa beira, sentados num banco,
Miseráveis, desprezíveis.

Nem um pouco de pão têm na mão,
nem uma esmola no seu gasto e imundo chapéu.
Bebem, desperdiçando o pouco que têm,
Lutam pelo que afiguram ter.

Isto porque, só uma vez por outra se recordam deles,
Durante aquele tempo todo,
Só se lembraram de colocar uma moeda no chapéu, uma vez por outra.

E só agora, que chegou o Natal,
A época mais esperada por todos,
A época que nos satisfaz mais a uns do que a outros,
Aquela em que dizem que nos cai um gordo pela chaminé
e nos doa umas quantas coisas...
Aquela época que nos tira das beiras das ruas, dos bancos,
Dos becos da cidade,
Para comermos uma sopa quente e alcançar um agasalho.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Obstruição


Voava pelos sublimes céus,
Enfadada criatura,
Faminta de amar, e fazer amor.
Ensonada despenhava-se,
Dentro da falta de matéria-prima.

Engolindo os sopros vazios,
Com sabor a sol.
Matando o seu próprio ser,
A enfadada criatura não queria jamais viver.

Obstruída deitou-se numa campa, até ao chegar de amanhã.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Provarei meu próprio veneno,

Eu irei correr, por essas praias,
Eu irei pisar essas ondas,
Eu irei falar do horizonte,
Eu irei descobrir o mundo...
Irei voar até aos céus,
Agarrar a neblina,
Entrar na velha floresta,
Romper-me como a noite.
Morderei meus lábios,
Para sentir o sabor do meu sangue,
Tudo aquilo de que preciso para resistir ao gene da ingenuidade,
Que é portador do grande defeito da autodestruição.